CAPÍTULO 1

Caixa de texto: 30/04/2007

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SEGUNDA QUE VEM TEM MAIS!

Mooca, Zona Leste

Bairro operário, onde convivem imigrantes e descendentes de italianos, espanhóis, portugueses, japoneses, judeus, árabes etc. E aqui há que fazer uma observação: para nós sempre foi Alto da Mooca (sem acento, por favor). Onde nasci, estudei e onde tudo aconteceu (quase tudo). A casa, onde o porão em que ensaiávamos ainda resiste, fica na Rua Salvador Fiordelísio (antiga Travessa João Borba).

Fizemos o ginásio e o colegial no ótimo e disputado CENE (Colégio e Escola Normal Estadual) Plínio Barreto: escola pública inaugurada por Carvalho Pinto (era preciso passar no exame de admissão para estudar ali). Da 2ª série do ginásio (1965) em diante, vários alunos, entre eles eu,  Fichmann, “Guigui”, “Coquinho”, Ronaldo, que morava  a duas quadras de casa, e tantos outros passamos a cair sempre na mesma sala, até o fim do colegial (Ensino Médio), e formamos uma turma duradoura de amigos. Giovanni (“Jean”) e Pedutti, respectivamente baterista e baixista dos Maphaus, também eram da nossa 2ª A. O Xuxu (Renato Figueiredo), guitarrista desse badalado grupo, estudava na 2ª B.

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Foi o Ronaldo que nos aproximou do Fichmann, que também era fã dos Beatles, descoberta surpreendente. Fichmann é uma pessoa de um enorme e puro coração, sempre disposto a solidarizar  todos com todos. Invariavelmente  lutando para eliminar as diferenças, o preconceito, a disparidade. É um comunista do amor, distribuindo beijos e abraços aonde quer que vá. E alegria. Quando pega o violão, o local vira uma festa. Se for uma festa, vira um réveillon. Artesão da música, transforma detalhes insignificantes em obras-primas. Esse é nosso amigo Fichmann. Sem esquecer que tem inúmeras composições vanguardistas.

                          

 

Algumas das várias fases da trajetória do enorme coração de Luiz Fichmann

Já o Coquinho (Antonio Carlos Bernardi), muito espirituoso com as perspicazes observações que habitualmente faz sobre tudo e todos, foi tomado certo dia por uma paixão incontrolável por nisseis e sanseis, as belas descendentes de japoneses. Não havia quem o demovesse dessa idéia. Desde o ginásio era vidrado naqueles olhinhos puxados.

Ronaldo, por seu turno, tinha talento natural para travar amizades. Aonde quer que fosse, acabava fazendo amigos; e assim nossa rede de relacionamentos se expandia. Evidentemente que os demais também fazíamos amigos; mas o Ronaldo é o mestre nesse quesito. Acho que o segredo é a maneira como ele demonstra respeito pela opinião dos outros, ou o fato de saber ouvir.

        

O furacão de Liverpool arrasa a Mooca

De repente, por obra do destino, a música e os Beatles entraram em nossa vida — para nunca mais sair.

O irmão mais velho do Ronaldo, Marcio, ganhara dos pais, se bem me lembro, um violão (de cordas de náilon, tipo aprendiz), mas quem realmente descobriu a vocação e aprendeu a tocar foi o "Gordo" (apelido com que eu e alguns amigos da rua dele costumávamos chamar o Ronaldo, já que ele era um pouco gordinho). Na escola, ele era o "Gasparzinho", talvez pela facilidade de fazer amigos.

De acordo com o próprio Ronaldo: “O violão era Giannini, tinha pintura ‘sunburst’, preto para um cinza-azulado, sei lá. Eu devia ter uns 14 anos, portanto 1967, mas posso estar enganado. Eu me lembro que aprendi os primeiros acordes (E, A e D) com o Xuxu, e as músicas eram A Boneca que Diz Não e outra, aquela... ‘briguei só pra ver se ela gostava um pouco de mim...’, do Renato e seus Blue Caps. Eram da Jovem Guarda; os Beatles vieram em seguida, ou melhor, junto, pois o Roberto Carlos falava deles nos programas”.

Acho que o Xuxu fez tudo de caso pensado ao ensinar os acordes para o Ronaldo, pois, assim que o Pedutti (João José Pedutti) deixou os Maphaus, o Xuxu passou a tocar contrabaixo e trouxe o Ronaldo para ser o guitarrista da banda (Brincadeirinha...)

Novamente, arquitetos do universo entram em ação. A mãe do Gordo, a gentil e sempre bem-humorada professora de piano dona Edi, deu-lhe de presente o disco Reis do Ié-Ié-Ié, dos Beatles, e ele tirava de ouvido, com o talento natural que sempre teve, a harmonia das canções e nos repassava os acordes. Eu ouvia na rádio músicas como I Wanna Hold Your Hand* ou I Should Have  Known Better, mas agora estava sendo introduzido ao rico universo dos Beatles também pelos bastidores.

Estávamos desvendando os segredos de como os quatro alquimistas utilizavam a pedra filosofal para materializar aquela magia. Que acordes usavam, como eram as seqüências, as palhetadas, quais os truques.

O violão se tornara então o centro das atenções nas rodinhas de bate-papo; e o amor pela música criava uma rede de amizades. Eu e meu irmão conhecíamos os acordes básicos e sabíamos tocar trechos de músicas flamencas que meu pai nos ensinava, além de Tijolinho (de Bobby Di Carlo) e mais algumas. Mas não havia como resistir... Os Beatles invadiram nossas aurículas e ventrículos e ocuparam quase todos os espaços. Eu e o Ber começamos então a ouvir J., P., G. e R. diária e incansavelmente numa radiovitrola antiga até quase furar o vinil, e depois rascávamos no violão melodias e acordes, cantando as letras do jeito que as entendíamos: "Tilontiu, ié-ié-ié..." (She Loves You). Nada era tão prazeroso como cacarejar em inglês aquelas incríveis canções e se acompanhar ao violão.

Essa é na verdade mais a história de nossa adolescência que do FRAGATA; mas, como tudo está interligado como você mesmo vai poder verificar, é preciso contá-la.

 

Durval, Edu, Fisóca

  Você deve estar se perguntando: “Onde andariam por essa época os outros três membros do futuro navio pirata, o FRAGATA?”

Bom, isso quem está intimado a responder são eles. Lembro que, quando comecei a freqüentar a casa do Ronaldo a partir da época do ginásio, Fisóca devia ter 8 ou 9 anos, a mesma idade de meu irmão. Ele passava correndo por nós montado em seu alazão de madeira, armado de revólver de espoleta, com uma estrela de xerife no peito atrás dos vilões.

Depois voltava chorando... sem a estrela!

(*) Havia uma versão da “cabra que gritou méééé”,  mais conhecida que o original no Brasil.

 

 

A colmeia crescia

Muita gente, mas muita gente mesmo que íamos conhecendo se agregava ou servia de elo para novas amizades e acabava direta ou indiretamente, e sem o saber, ajudando a preparar as bases do sonho que foi o FRAGATA.

Sem contar todos os que já apareceram, eis alguns: Maurinho primo do Ari; Binho e Flavio, primos de Claudião e Carlão; Foguinho, Luiz Sérgio Dadário, Maru (Maria Cecília), Marcia Cleide e Marta Célia (as doces irmãs Fagá); Enio, Renatinho, Gibah, Falcão; Fidalma, Gogói; Ronaldinho, Nivaldo, Yarinha, Raul, Marcia, Lili (esposa do Ronaldo)... e muitos muitos mais. Claudinho Lucci, André Christovam, Marcão... Um nome acaba puxando outro, que acaba puxando outro, que acaba puxando outro, como as obras surrealistas de Salvador Dalí, como diria a Maru.

Vó Luiza, Lídia, Jorginho Cury, Armandinho, Didi, Newton “Celso Garcia”, Mauricio Aguggia... Pholhas, Zappa, Tutti Frutti, Teia, Guilherme Arantes, Toinho Penhasco... Corre-se o risco de, com muita facilidade, esquecer alguém; ou pelo menos lembrar dele fora da ordem cronológica. Mas nada que impeça de reparar o texto oportunamente ou incluir a pessoa e fazer um “flashback”.